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sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Clássicos da literatura ganham novo colorido nas mãos de novos autores

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Um projeto muito legal fez com que autores reescrevessem clássicos da literatura com um toque a mais para diferenciar. Entre as obras que ganharam nova roupagem estão Senhora, de José de Alencar, e 'Dom Casmurro' e 'O Alienista', de Machado de Assis. A seguir os autores falam sobre a experiência de recriar esses sucessos literários.

Vingança é apimentada com dose de feitiçãria em "Senhora, A Bruxa" 

Escrita por Angélica Lopes, a recriação "Senhora, A Bruxa" mantém de 60 a 70% do original, o clássico "Senhora" (1875), de José de Alencar (1829-1877). A obra integra a coleção "Clássicos Fantásticos", publicado pelo selo Lua de Papel, da editora LeYa.

- Tive a preocupação de manter os diálogos-chave, de briga entre os dois (Aurélia Camargo e Fernando Seixas) e de reconciliação, mas criei uma trama nova com as três irmãs Blair, bruxas que viveram no início do século 19 em busca de três ingredientes - explicou Angélica.

Os componentes citados são quatro lágrimas de desilusão instantes após o abandono, duas gotas de sangue feitas na intenção de matar e duas juras de ódio feitas por alguém que já jurou amor eterno.

As feiticeiras celtas manipulam o casal para que eles se apaixonem, se amem, se abandonem, jurem ódio e depois cheguem a um ponto de querer se matar.

- Na verdade, é uma estrutura que o Alencar já tinha criado, de vingança, paixão e tristeza. Eu aproveitei essa estrutura dramática para criar as bruxas.

O perfil psicológico dos personagens centrais é preservado. Aurélia Camargo é poderosa, rica, linda e solteira. Consegue enfeitiçar todos os homens à sua volta. No entanto, ela planeja se vingar de seu ex-namorado, Fernando Seixas, que a abandonou.

A situação, já amaldiçoada por si só por envolver ressentimento e vingança, desperta o interesse das três bruxas, as irmãs Blair que, em busca de vida eterna, semeiam a discórdia entre casais apaixonados há mais de 300 anos.

- Achei que tinha muito de poder feminino na história, de reconquistar alguém, e tinha a ver com bruxaria, feitiço, de trazer amor em três dias (risos). Toda essa vingança da Aurélia é ajudada pelas bruxas - explica Angélica.

A autora afirmou que faria o processo inverso - extrair os elementos fantásticos e deixar somente os originais - em "A Metamorfose", do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924). No entanto, ela reconhece que retirar a fantasia de um romance fantástico parece menos sedutor.

- A ousadia seria tirar a ousadia, o que, convenhamos, não soa como muito ousado. Mas, nessa linha, eu imagino um "A Metamorfose", em que Gregor não acordaria como barata, mas sem dinheiro, morador de rua, daí, a rejeição que ele sofreria da sociedade.

"Dom Casmurro e os Discos Voadores" recria clássico sob perspectiva da ficção científica

Em "Dom Casmurro e os Discos Voadores", Lúcio Manfredi vai além do mistério que os olhos de ressaca de Capitu contêm e agrega porções fantásticas à trama, recriada a partir de "Dom Casmurro" (1899), de Machado de Assis (1839-1908).

A obra integra a coleção "Clássicos Fantásticos", publicado pelo selo Lua de Papel, da editora LeYa. Nela, Manfredi inseriu seres alienígenas e andróides à história do célebre triângulo amoroso - Bentinho, Capitu e Escobar.

A narrativa começa em 1857, com Bentinho aos 14 anos descobrindo seus sentimentos por Capitu. Os leitores devem descobrir quem são realmente as figuras nesse romance, porque eles estão disfarçados sob os personagens originais de Machado. O ciúme obsessivo de Bentinho também marca presença nessa recriação.

Em entrevista, Manfredi afirmou ter um profundo respeito por "Dom Casmurro" e que queria escrever uma versão que preservasse os elementos essenciais da obra só que transpostos para um novo contexto, o fantástico.

- Não me parece que isso seja uma heresia. Machado mesmo flertou com o fantástico em "Memórias Póstumas de Brás Cubas" e em vários de seus contos - disse.

Do conteúdo da obra original, de 30 a 40% foi preservado, segundo o escritor.

- Era obrigatório manter alguns trechos, como o da descrição dos olhos de ressaca de Capitu. Mas mesmo esses trechos ficam com um sentido completamente diferente à luz do resto do texto, que foi quase totalmente reescrito.

O escritor reconhece que há várias referências escondidas no livro - de obras e de autores clássicos da ficção científica, filmes e seriados de TV.

- "Dom Casmurro" desenvolve alguns temas que me são caros, como até que ponto podemos conhecer outra pessoa, até que ponto podemos conhecer de fato a nós mesmos e até que ponto podemos saber o que é ou não real. Todos esses temas continuam presentes na minha versão, com a diferença de que agora eles são retrabalhados dentro da perspectiva da ficção científica - esclarece Manfredi durante a conversa.


Nave extraterrestre despenca na história de "O Alienista Caçador de Mutantes"

A ideia começa com um trocadilho quase infame. O alienista da adaptação "O Alienista Caçador de Mutantes" é um especialista em alienígenas. Daí sua alcunha.

História clássica de Machado de Assis publicada originalmente em 1882, ganhou nesta edição a presença de mutantes em suas páginas. A obra é assinada pela escritora Natalia Klein e lançada pelo selo Lua de Papel, da editora LeYa.

Voltado ao público infantojuvenil, o livro tem linguagem fácil, sem aquelas notas de rodapé, comumente encontradas nos clássicos brasileiros. Para aproveitar elementos contemporâneos a autora insere trechos em que o médico infectologista Simão Bacamarte faz uma pesquisa usando o Google e a Wikipédia ou comendo uma pizza.

A trama tem início quando uma nave extraterrestre cai nas proximidades da vila de Itaguaí. Dos destroços sai uma fumaça que causa mutação em quem tiver contato com ela.

O leitor acompanha a luta de Bacamarte para criar um lugar, a Casa Verde - em homenagem a cor dos marcianos - em que os mutantes mais nervosos possam ser internados e estudados. Meta humanos mais pacíficos convivem bem com a sociedade, fazendo reparos com raio laser saído dos olhos ou salvando gatinhos com uma incrível elasticidade.

"O Alienista Caçador de Mutantes" integra a coleção "Clássicos Fantásticos", ao lado de títulos como "Dom Casmurro e os Discos Voadores", "Senhora, A Bruxa" e "A Escrava Isaura e o Vampiro".

Esses mash-ups, ou mixagens, surgiram no exterior e já renderam sucessos como "Orgulho e Preconceito e Zumbis" e "Jane Austen: A Vampira".

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